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 Pra quem se fu***, como eu, na prova de cálculo.

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Carioca
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MensagemAssunto: Pra quem se fu***, como eu, na prova de cálculo.   Qui Abr 09, 2009 9:43 am

Por que é que a Gente é assim ?

É na Escola de Engenharia que começa a ser destruída a nossa
auto-estima. É na Escola de Engenharia que começa a ser
forjado o nosso comportamento autodestrutivo, nosso desprezo
pelos valores da própria profissão, nosso desgosto com a
nossa própria atividade profissional.

É na Escola de Engenharia que nasce a nossa falta de coragem
empresarial e essa submissão inaceitável aos caprichos dos
clientes.

É batata ! Toda vez que, numa conversa qualquer, o assunto
"comportamento no mercado" vem à tona acabamos caindo nas
inevitáveis comparações de Engenheiros, Arquitetos e
Agrônomos com Médicos, Dentistas e Advogados...

Quando me perguntam o que eu acho disso (dessa comparação de
profissionais tão diferentes) respondo sempre a mesma coisa:
acho que essa comparação é JUSTÍSSIMA.

Se eu, engenheiro, por qualquer motivo, tiver de ser
comparado com outros profissionais, acho muito justo que
seja com médicos, com dentistas ou com advogados.

Afinal temos muito mais coisas em comum do que diferenças.
Somos todos prestadores de serviços. Nosso produto (nosso
serviço) é altamente especializado e todas essas atividades
demandam profissionais com capacidade intelectual superior.
Não se chega a ser médico, advogado, dentista, agrônomo,
arquiteto ou engenheiro apenas por ter um belo par de olhos,
uma voz doce ou algum dinheiro no banco...

O exercício das profissões e o comportamento empresarial de
cada grupo, no entanto, é o que têm construído enormes
diferenças operacionais, comportamentais e,
conseqüentemente, patrimoniais, entre engenheiros médicos,
arquitetos, dentistas, advogados e agrônomos

Mas isso não elimina as semelhanças imensas que sempre
tiveram e que ainda têm.

Neste texto concentramos nossas reflexões sobre a formação
dos profissionais de engenharia. No entanto, nossa
experiência e a convivência com milhares de arquitetos e
agrônomos dos mais distantes lugares do Brasil nos permitem
acreditar que os conceitos podem se estender sem problemas
também para esses profissionais.

Voltemos no tempo. Voltemos ao tempo em que essa pessoa (que
hoje é um engenheiro) tinha seus quinze, dezesseis anos, um
ou dois anos antes do vestibular. Esse moço ou essa moça é,
muito provavelmente, um dos melhores alunos da sua sala
(talvez da escola). É um expoente estudantil, requisitado
pelos colegas, elogiado pelos professores, respeitado pelos
pais, de quem é motivo de muito orgulho, valorizado pelos
parentes, pelos vizinhos, admirado pelas garotas (ou
garotos).

Comparemos nosso amiguinho com o estudante de quinze ou
dezesseis anos que virá a ser médico, dentista ou advogado.
Veremos quase nenhuma diferença.

É isso mesmo. Na origem, são todos iguais. Têm o mesmo
perfil, a mesma história, o mesmo rendimento. Todos são
brilhantes e bem sucedidos.

Vem o vestibular. Ingressa, cada qual na faculdade que
escolheu... E é aí que as diferenças começam a aparecer.

Os estudantes de medicina e de odontologia são enquadrados
em um ambiente novo, com pessoas que se vestem de uma
maneira diferente, se comportam de uma maneira diferente e
que estabelecem uma identidade visual (e, por decorrência,
uma identidade psicológica) com a atividade profissional que
irão exercer alguns anos depois.

Os estudantes de direito, já nos primeiros meses de escola
convivem com professores que vêm para as aulas de terno,
gravata, sapato social, barba feita ou bem cuidada.

E o mais interessante: aqueles senhores e senhoras
respeitáveis, bem vestidos e de fina educação (os
professores), tratam os seus alunos por "senhor" ou
"senhora", com toda a fineza e educação que a prática
profissional recomenda. E estimulam seus alunos a acreditar
e se convencerem de que são superiores. Que estão se
preparando para "falar com o Estado" (privilégio que não é
concedido a nenhum outro profissional...). Enfim, aprendem
que precisam respeitar os outros, mas aprendem, antes de
tudo, que precisam exigir respeito para si.

Nos últimos anos de faculdade, estudantes de odontologia e
medicina já se vestem como se médicos ou dentistas fossem.
Freqüentam clínicas e atuam como profissionais na área da
saúde. Assumem, enfim, um ou dois anos antes de terminada a
faculdade, todo um comportamento típico de médico. De
dentista.

Os estudantes de Direito, por sua vez, a partir da Segunda
metade do curso, já se vestem como advogados (roupa social,
sapato, eventualmente gravata e um terno ou blazer...).
Mantém com os seus professores e com os seus colegas um
comportamento e um vocabulário apropriado para as lides
jurídicas. E, o mais importante: são tratados, pelos seus
professores, como Doutor. (Dr. Fulano, termine seu relatório
até a próxima aula. Dr. Sicrano, esteja preparado para a
prova final, na sexta-feira.). Apesar de ainda não terem
concluído o curso.


Os estudantes de engenharia, ao contrário, desde o início do
curso, a única diferença que eles conseguem perceber na
faculdade, em relação ao ensino médio é o grau de
dificuldade (que simplesmente quintuplica!)

Não existe nenhum estímulo a um comportamento novo, nenhuma
referência, um exemplo positivo de comportamento. Nenhuma
motivação para um desenvolvimento psicológico alternativo.
Nenhum elemento que interfira na formação do profissional do
ponto de vista da sua imagem física composta de aspectos
visuais e comportamentais. A vida social, no ambiente da
faculdade, é muito restrita, quando não inexistente.

Além do mais, a faculdade entra na vida desses jovens como
um elemento de ruptura. Os alunos são colocados em uma
condição a que eles não estavam acostumados. Estavam
acostumados a tirar notas máximas com a maior facilidade e,
de repente, passam a sofrer e ter grandes dificuldades para
obter notas mínimas ou médias. Deixam de ser respeitados
pelos seus professores que se tornam distantes e
autoritários e perdem a admiração dos colegas que estão
todos desesperados tentando se salvar de uma coisa que ainda
não estão entendendo direito.

Não que as faculdades de medicina, direito ou odontologia
sejam fáceis. Ocorre que lá os estudantes têm compensações
psicológicas que os estudantes de engenharia não têm. Essas
faculdades, por diversos mecanismos, inexistentes nas
escolas de engenharia, dão continuidade ao amadurecimento
psicológico e social do futuro profissional. E, com isto,
mantêm em alta a motivação e auto-estima dos seus
estudantes.

Na engenharia não existe nenhum processo de acompanhamento
psicológico para aquele estudante desesperado que teve a sua
carreira de sucesso estudantil subitamente interrompida
(mesmo os alunos que continuam conquistando notas altas,
acabam sentindo a falta do aplauso dos colegas, do respeito
dos professores e da admiração coletiva). E não existe
ninguém para explicar o que está acontecendo. Ninguém para
dizer a este estudante que ele não é tão inepto ou incapaz
como, algumas vezes os professores parecem querer provar.

É quase geral, por parte dos professores, nas escolas de
engenharia, o exercício gratuito de poder e o terrorismo
psicológico.

E o aluno, que entrou na faculdade no auge positivo da
auto-estima, vai recebendo, ao longo de cinco anos, das mais
variadas formas, uma única mensagem: "Você não é tão bom
quanto você pensava que fosse !".

Ao contrário dos estudantes de direito, medicina ou
odontologia, que têm como professores, profissionais que
atuam no dia-a-dia de suas atividades, os estudantes de
engenharia passam cinco anos submetidos aos rigores (e, em
alguns casos, caprichos) de engenheiros que não atuam,
profissionalmente, como engenheiros e sim como professores,
e que, portanto, não têm a vivência da atividade
profissional e não têm a ciência ou a consciência das
relações comerciais que vão definir o sucesso ou o fracasso
dos profissionais que eles estão formando.

Como resultado disso, ao final de cinco anos, o estudante de
engenharia se transforma em um engenheiro. E este engenheiro
é completamente desprovido de auto-estima, de respeito
próprio, de prazer profissional ou de consciência de
mercado. Na metade do último semestre da faculdade, dois
meses antes de receber o diploma e ser entregue aos leões do
mercado, o estudante de engenharia ainda é tratado como mero
es-tu-dan-te.

Em momento algum, durante a faculdade, o estudante de
engenharia é tratado como engenheiro, em momento algum,
durante esses cinco anos, a escola propicia a percepção da
mudança de condição de estudante para a condição de
profissional.

Estudantes de direito, medicina e odontologia, ao contrário,
muito antes do fim da faculdade já têm uma noção
razoavelmente clara das dificuldades do exercício
profissional que eles irão enfrentar. Com isso vão
desenvolvendo mecanismos psicológicos de defesa e saem da
faculdade com maior grau de segurança. Entram no mercado
profissional de cabeça erguida, com uma consciência de
valor. E com todo o processo de construção da imagem
profissional em andamento.

Estudantes de engenharia não são estimulados a se vestir
bem, nem a ter preocupações com técnicas de comunicação ou
relacionamento social ou de exercício intelectual não
linear. Com isso acabam não desenvolvendo habilidades
gerenciais ou de relacionamento com o mercado.

Esta é uma das razões pelas quais as organizações de
engenharia são quase sempre extremamente burocráticas e
conservadoras.

Os engenheiros, via de regra, só vão perceber os resultados
da negligência com a imagem física e o comportamento no
mercado, depois de já terem acumulado algumas perdas
desnecessárias (algumas das quais, infelizmente,
irreversíveis).

E qual é a utilidade desse discurso? Qual a importância de
se colocar este tema no papel? Porque tornar pública esta
opinião, que, com certeza aborrecerá alguns segmentos?

Ninguém é ingênuo a ponto de acreditar que a simples leitura
deste ensaio leve um diretor de escola de engenharia, um
professor, um estudante ou um profissional de engenharia a
alterar o seu comportamento.

O que se espera é que essas pessoas, a quem o texto é
dedicado, tenham um momento de reflexão. E que a esse
momento de reflexão se siga uma atitude. E que essa atitude
tenha como objetivo dar um futuro melhor para a engenharia
no Brasil.

A engenharia depende dos engenheiros. E os engenheiros
começam a ser formados aos quinze ou dezesseis anos, ainda
no ensino médio.

Eu ainda acho, como sempre achei, que o conhecimento
científico que é transmitido aos estudantes durante a
faculdade de engenharia é fundamental. E que o valor da
engenharia está sustentado na capacidade intelectual e
técnica dos seus profissionais.

No entanto, vejo como importantíssima uma nova visão, nesse
processo de formação do engenheiro, que leve em consideração
todo o relacionamento social dos estudantes entre si e com
os seus professores. É importante que, aos estudantes, seja
transmitida uma visão mais clara das relações comerciais que
eles enfrentarão na vida profissional, seja na condição de
profissionais autônomos, empresários ou empregados em alguma
empresa.

Em qualquer um desses casos as relações sociais são
elementos definitivos para o sucesso. É um "detalhe" que faz
toda a diferença.

Na Escola de Engenharia o engenheiro precisa ser
"construído" para ser um vencedor. Precisa ser estimulado a
acreditar no seu potencial. Confiar na sua inteligência. E,
acima de tudo, precisa aprender a importância de manter a
cabeça erguida.

Fevereiro de 2002

A reprodução dos textos de autoria de Ênio Padilha em
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